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PR9 - Trilho dos Canos de Água Pontos de Interesse |
7. Ctânia de Santa Luzia

A Citânia de Santa
Luzia é um notável exemplar de um povoado fortificado do Noroeste
Peninsular, tanto pela sua dimensão, planeamento urbanístico, como pela
tipologia da sua construção e carácter defensivo.
Encontrando-se na coroa do Monte de Santa Luzia, num local geograficamente
estratégico, dominando toda a área envolvente, desde o estuário e foz do Rio
Lima até à zona costeira atlântica, este povoado fortificado de tipo
proto-urbano evidencia uma ocupação contínua entre os períodos da Idade do
Ferro e Romanização. As ruínas desta citânia são igualmente designadas por
Cidade Velha de Santa Luzia, e são conhecidas desde, pelo menos, o século
XVII, altura em que ocorreram as primeiras escavações na sua área em 1876,
por iniciativa de Possidónio da Silva, presidente da Real Associação dos
Architectos e Archeologos Portuguezes, sendo que as estruturas actualmente
visíveis se devem, na sua grande maioria, à intervenção encetada por Albano
Belino já em 1902.

Não obstante estas iniciativas, encontra-se a descoberto unicamente um terço
da área total abrangida pela Citânia, cuja parcela significativa se perdeu
na sequência da construção do Hotel de Santa Luzia, bem como das suas
respectivas vias de acesso. Relativamente à caracterização deste povoado
fortificado, deverá ser realçado o facto das suas estruturas habitacionais
encontrarem-se predominantemente organizadas em verdadeiros quarteirões,
que, por sua vez, encontram-se separados por muros e áreas de circulação
bastante demarcados, alguns dos quais lajeados. As habitações apresentam,
geralmente, planta circular, elíptica ou, embora menos frequentemente,
rectangulares, com ou sem vestíbulo.
As
entradas destas casas encontram-se maioritariamente orientadas no sentido
Sudoeste-Sudeste, coincidindo com a pendente geral do terreno onde se
encontra implantado o povoado, por forma a abrigar as habitações, quer das
águas pluviais, como dos ventos de nortada.
Concernentemente ao aspecto interior das casas, e para além da incontornável
lareira, verifica-se que o seu piso é, normalmente, o próprio solo natural,
aproveitando-se, por vezes, a presença das rochas existentes na cumeeira.
Menos frequente, será a construção de um piso interior perfeito de terra
argilosa batida ou saibro.
À semelhança de
outros povoados atribuídos à Idade do Ferro do Norte de Portugal, como nos
casos da Citânia de Briteiros e da Cividade de Âncora, também o de Santa
Luzia apresenta uma preocupação vincadamente defensiva. Daí, a presença de
três linhas de muralhas servidas por um caminho de ronda, e reforçadas por
fortes torreões de dois fossos, sendo o acesso ao topo deste sistema
defensivo efectuado através de uma escadaria, que ainda se encontra visível
na face interna da própria muralha. Todavia, a eleição deste local para uma
tão duradoura ocupação não poderá explicar-se unicamente pela sua
privilegiada situação estratégica, em termos defensivos, que os seus
sucessivos habitantes souberam perfeitamente adaptar às suas necessidades
quotidianas, nomeadamente ao aproveitarem as próprias características
físicas do próprio terreno para soluções arquitectónicas mais pontuais e
peculiares.
Com efeito, a explicação deverá ser, obrigatoriamente, complementada por
todo um conjunto de condições de ordem cinegética. Assim, esta constituía,
sem dúvida, uma zona particularmente favorável à prática de actividades
agropecuárias e de recolecção, assim como ao aproveitamento dos diversos
recursos fluviais e marítimos que se encontravam largamente ao dispor da sua
população, redundando no surgimento de actividades quotidianas e hábitos
alimentares muito específicos que ficaram registados, por exemplo, nos
textos de Estrabão. Actividades estas que, no seu conjunto, implicavam,
necessariamente, a projecção e fabrico de uma considerável tipologia de
utensílios de trabalho, surgindo paralelamente outras, directa e
indirectamente correlacionadas, como no caso da cerâmica, metalurgia e
tecelagem.